O Açaí: Da Mitologia Indígena à Superfruta Global – Uma Jornada pela História, Ciência e Cultura dessa árvore icônica da Amazônia.

Seja dentro ou fora do Brasil é difícil encontrar alguém que já não tenha ao menos ouvido falar do Açaí. Sua cor arroxeada e sabor único contribuíram para sua fama internacional, dentre outras qualidades tipicamente observadas em palmeiras da mesma família (família das arecaceae, que inclui outras frutas como a Juçara, o coco e o dendê.)

Nas Alturas
Seu tronco alto e esguio pode atingir uma altura de até 25 metros (82 pés ), onde se encontra uma coroa de 9 a 15 folhas compostas, com cerca de 1,2 a 4 metros de comprimento. Logo abaixo delas, as inflorescências em cachos pendentes, em tons de branco e verde, que atraem uma variedade de polinizadores, de abelhas à pássaros coloridos. Quando maduros, os cachos densos e aborrotados ostentam a tão famosa baga de açaí, pequenas bolotas roxas, de casca fina e rugosa, uma polpa macia e ácida e um caroço grande e duro. Ela é consumida principalmente na forma de polpa, que é batida com água ou leite e tradicionalmente servida com farinha de mandioca ou tapioca em pratos salgados. Ela também pode ser usada para fazer suco, sorvete, doces, bolos, etc.

Um Superalimento
O açaí, considerado um superalimento, é uma fruta rica em nutrientes, especialmente em antioxidantes, vitaminas, fibras, cálcio, ferro e gorduras boas para o nosso organismo. Ela tem propriedades energéticas, afrodisíacas e anti-inflamatórias, que ajudam a melhorar o desempenho físico e sexual e a combater doenças como gripes, resfriados, infecções e anemia. O açaí também é usado na indústria farmacêutica e cosmética, por seus benefícios para a saúde e a beleza da pele e dos cabelos. Essas frutas de uma coloração roxa intensa não só alimentam a fauna local, mas também sustentam comunidades humanas há séculos, oferecendo uma fonte vital de alimento e renda.

De fato, além de sua importância como recurso alimentar, a árvore de açaí desempenha um papel fundamental na ecologia da região onde é naturalmente encontrada, proporcionando habitat para uma variedade de organismos e contribuindo para a biodiversidade única da Amazônia. Sua resistência às condições adversas e sua capacidade de prosperar em solos alagados fazem dela uma espécie vital para a saúde dos ecossistemas ribeirinhos.

Tesouro da Floresta
Do ponto de vista econômico, a palmeira do açaí é uma grande geradora de recursos. Segundo dados da CONAB, a produção nacional foi de 1,7 milhões de toneladas em 2020. Gera atualmente mais de US$ 1 bilhão por ano para a economia brasileira e é uma fonte significativa de renda para a população ribeirinha, os habitantes das margens dos rios da Amazônia, majoritariamente, cultivado por pequenas cooperativas que ajudam no aumento da renda das famílias dessa região. A demanda global por açaí levou ao seu reconhecimento como um superalimento, aumentando ainda mais o seu valor econômico nos últimos anos, se tornando uma das frutas mais cultivadas na Região Nordeste do país.

O Estado do Pará lidera a produção nacional de açaí, fornecendo cerca de 85% do total do país, o equivalente a aproximadamente 820 mil toneladas por ano (dados de 2018). A maior parte desse montante, cerca de 60%, é consumida dentro do próprio estado, enquanto 30% são distribuídos para outras regiões do Brasil. Apenas 10% da produção é exportada para o exterior, levando o sabor característico do açaí para além das fronteiras nacionais.

Presente dos Céus
Mesmo antes de ser introduzida no mercado brasileiro (a partir dos anos de 1980), já desempenhava um papel de grande importância entre os povos indígenas que viviam e vivem nas florestas da Amazônia. Protagonista de contos e lendas desses povos, o açaí continua tendo um lugar de destaque para essas comunidades.

Segundo o Folclore indígena brasileiro o açaí surgiu como um presente dos Deuses. O cacique Itaki mandou sacrificar as crianças recém nascidas da tribo para evitar a fome que os assolava pois a população era muito numerosa e estava difícil conseguir alimento para todos. Um dia sua filha Iaçã teve uma menina que também teve de ser sacrificada, segundo a ordem do cacique. Iaçã ficou profundamente triste com isso, passando dias e noites chorando em luto no interior de sua oca. Ela pediu a Tupã (considerado por muitos grupos indígenas uma divindade suprema, Tupã é responsável por controlar os elementos da natureza e influenciar os ciclos vitais das plantas, dos animais e dos seres humanos, é frequentemente associado à fertilidade da terra e à proteção dos povos indígenas. Em muitas tradições, Ele é reverenciado e invocado em rituais e cerimônias como uma forma de buscar sua bênção, proteção e orientação) que mostrasse ao seu pai uma forma de alimentar seu povo sem que fosse necessário tirar a vida das crianças da tribo. numa noite de luar, ela ouviu um choro de criança e ao sair na porta da toca, avistou sua filha sorrindo ao pé de uma palmeira. Iaçã correu para abraçá-la, mas a criança desapareceu dentre seus braços. Inconsolada, Iaçã acaba morrendo abraçada àquela árvore. O cacique encontrou o corpo de Iaçã abraçada à palmeira, com os olhos voltados para seus frutos e um sorriso no rosto. Itaki mandou que os colhessem aqueles frutos. Ele fez um vinho da polpa que alimentou a tribo e ordenou que não houvessem mais sacrifícios a partir daquele dia, dando o nome aos frutos de açaí em homenagem à sua filha (Iaçã ao contrário). O nome açaí vem do tupi-guarani “ïwasa’i”, que significa “fruta que chora”.

Importância Atestada
Além da sua importância secular na dieta dos povos indígenas, suas folhas podem ser utilizadas na fabricação de chapéus, esteiras, cestos, vassouras de palha e telhado para casas, e madeira do tronco, resistentes a pragas, para construção civil. Os troncos da árvore também podem ser processados para produzir minerais. O seu palmito é amplamente explorado como uma iguaria, e o óleo de açaí também possui diversas propriedades químicas que causam efeitos benéficos no corpo humano. Depois da retirada da polpa, as sementes limpas são amplamente utilizadas na produção de peças de artesanato, contribuindo ainda mais para a arrecadação de recursos financeiros dos povos da região Amazônica.

Infelizmente, a produção de açaí no Pará tem impactado o ambiente, reduzindo a diversidade de árvores nativas e gerando resíduos. Esses resíduos, principalmente os caroços, têm sido descartados de forma irregular, causando problemas para a população. No entanto, pesquisas têm explorado maneiras de aproveitar esses resíduos de forma sustentável, como na fabricação de próteses e embalagens biodegradáveis. Iniciativas locais buscam regularizar a coleta e destinação adequada desses resíduos, visando minimizar os impactos ambientais. Esses esforços destacam o potencial da pesquisa e inovação para promover a sustentabilidade e o desenvolvimento econômico na região.

Essa árvore tem sido um alimento básico na dieta desses povos por gerações e é frequentemente associada à saúde e à vitalidade. A colheita das bagas de açaí é uma atividade tradicional que envolve escalar as palmeiras altas, cortar os cachos incrivelmente abundantes de frutos e descer com eles nas mãos para posteriormente realizar a despolpa das bagas.

Seja como fonte de renda ou como fonte de alimentação, para comunidades locais ou para grandes indústrias internacionais de alimentação e cosméticos, o açaí tornou-se uma porta de entrada para a descoberta das riquezas por de trás das árvores nativas brasileiras com toda a sua exuberância, beleza e importância nos mais diversos aspectos da vida humana.

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